Com 47 anos de história, o Colégio Municipal Rui Barbosa (CMRB) corre o risco de ser extinto. Trata-se da única unidade que oferta ensino médio em tempo integral em Cabo Frio e foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial da cidade pela Lei nº 3.472/2022. A medida, articulada entre a Prefeitura Municipal de Cabo Frio e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), ocorre sem diálogo com a comunidade escolar e sob justificativas frágeis: a promessa falaciosa de “resolver” a falta de vagas na educação infantil e fundamental eliminando as turmas de ensino médio da rede municipal.
A ofensiva contra o Rui Barbosa também atinge outras escolas importantes. Em Tamoios, estão ameaçadas o Centro Educacional Prof.ª Marli Capp e a Escola Agrícola Nilo Batista. Na Vila Nova, corre risco a Escola Arlete Rosa Castanho — única da Região dos Lagos dedicada à educação de estudantes surdos. No Jardim Esperança, o alvo é o Colégio Prof.ª Elza Maria Santa Rosa Bernardo.
Ao ignorar o papel estratégico dessas escolas na formação crítica, no combate às desigualdades e na democratização do conhecimento, a medida representa um grave retrocesso. É um golpe no futuro da juventude cabo-friense.
“A cidade tem arrecadação bilionária e fecha escolas enquanto falta creche? Não faz sentido. Não é preciso tirar o ensino de uns para garantir o direito de outros. O que falta é diálogo e compromisso com a educação pública”, afirma Mônica Almeida, presidente do Conselho Escolar do CMRB.
Mobilização cresce, prefeito ignora, mídia comprada bate palma

Desde maio, a comunidade escolar do Rui tenta audiência com o prefeito “Serginho”, sem sucesso — mesma postura adotada diante das reivindicações do Sepe Lagos. Duas grandes manifestações já reuniram estudantes, professores, familiares e ex-alunos em protesto contra o fechamento da escola, todas pacíficas e amplamente apoiadas pela população.
“É decepcionante ter que lutar pelo direito de estudar”, desabafa a estudante Rebeca Von Jabornegg, presidente do Grêmio Estudantil Livre Edson Luis (Gelel), entidade que representa os alunos da instituição. “Os estudantes querem manter o colégio para que outras gerações tenham a mesma oportunidade que tivemos. Até agora, sequer fomos ouvidos pelo prefeito. Mas se ele pensa que vai nos desanimar com essa enrolação, está enganado. Continuaremos nos mobilizando!”
A comunidade do Rui Barbosa está se organizando para realizar uma nova plenária no dia 28 de julho, assim que a comunidade retornar do recesso escolar. Uma terceira manifestação está prevista para a primeira semana de agosto. O Sepe Lagos apoia integralmente a luta dos estudantes, professores e funcionários e tem mobilizado seu corpo jurídico para atuar contra essa tentativa de desmonte.
Enquanto o prefeito dá de ombros e se recusa a ouvir a comunidade, parte da imprensa local — cooptada pelo governo —, quando não boicota, ataca covardemente o movimento. Exemplos evidentes disso são os portais “RLagos”, de Glauber Ribeiro — desde sempre partidário incondicional do prefeito —, e “Lagos Informa”, que pertence a Léo Hezer, ironicamente um ex-aluno do CMRB. Ambos atuam a serviço de “Serginho” como difusores de desinformação camuflada de jornalismo. Veiculam conteúdos que vão da distorção mais grosseira possível dos fatos, lançando mão inclusive de calúnias e injúrias, até o uso antiético de inteligência artificial visando massacrar reputações.
Rui Barbosa é ciência, inclusão e futuro

O colégio conquistou cerca de R$ 100 mil em recursos via edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Esse dinheiro financiará o projeto “Rui Barbosa Faz Ciência na Praça”, a ser realizado em outubro, na Praça Porto Rocha. A feira reunirá mais de 100 trabalhos de escolas municipais, estaduais e federais da região, com oficinas, cinema científico, rodas de conversa, planetário e o lançamento de um canal educativo.
A iniciativa contempla ações afirmativas direcionadas a estudantes negros, adotando um processo seletivo que articula desempenho acadêmico e critérios de equidade racial e reparação histórica.
A escola também já tem estudantes bolsistas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), participa de olimpíadas como a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e forma alunos que ingressam nas melhores universidades públicas e privadas do estado.
Nesta semana, o corpo docente e estudantes do Rui Barbosa anunciaram uma nova conquista: por meio do edital nº 05/2025, da Faperj, mais quatro estudantes do colégio receberão bolsas de iniciação científica no valor de R$ 300 cada, com duração prevista de 18 meses. Os alunos selecionados desenvolverão pesquisas sob a orientação de professores do próprio CMRB e com o acompanhamento de uma docente vinculada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), fortalecendo a integração entre a educação básica e o meio acadêmico, além do interesse dos estudantes por ingressar em universidades.
O que está em jogo é uma escola que transforma futuros
Com cerca de 380 alunos — muitos em situação de vulnerabilidade —, o Rui Barbosa é uma escola plural, acolhedora e comprometida com a cidadania. Rejeita a lógica meritocrática excludente e valoriza o protagonismo estudantil.
Além da excelência acadêmica, promove atividades culturais, científicas e de valorização das culturas afro-brasileira e indígena, conforme as Leis Federais 10.639/2003 e 11.645/2008. Defender o Rui é defender também a identidade cultural de Cabo Frio.
Como resume a diretora Ivana Veríssimo: “A escola pública pode e deve ser referência de qualidade. É isso que fazemos aqui. Não aceitamos ser tratados como problema quando somos parte da solução.” Fechar o Rui é sufocar um projeto educacional de excelência que articula ciência, arte, diversidade e inclusão. É privar a cidade de uma referência pedagógica e de um espaço de pertencimento. É destruir um patrimônio cultural reconhecido por lei.
“Serginho” melhora a vida de quem com esse retrocesso?

A família do prefeito Sérgio Azevedo tem vínculos históricos com o setor privado de ensino, lucrando com a mercantilização de um direito humano fundamental: a educação. Sua mãe, Vânia Maria Azevedo, e seu tio, Alfredo Gonçalves (Republicanos), são proprietários de instituições particulares em Cabo Frio e região. Alfredo, atual secretário municipal de Educação, tem se destacado nos últimos seis meses não por melhorias na rede, mas por dificultar o funcionamento de instâncias essenciais de controle e participação social na gestão da educação.
O secretário-empresário atuou para que o Conselho Municipal de Educação (CME), o CACS-Fundeb e o Conselho de Alimentação Escolar (CAE) sofressem com uma série de obstruções: pedidos de informações e documentos ignorados, atrasos injustificáveis na indicação de representantes da própria Secretaria de Educação (Seme) para estes órgãos e obstáculos à publicação da composição atualizada dos conselhos. A postura revela desrespeito deliberado à transparência e à gestão democrática da educação pública.
Ao mesmo tempo, o secretário silencia diante de problemas estruturais graves, como obras inacabadas, falta de manutenção, falhas de infraestrutura e climatização nos ambientes escolares e a crônica carência de profissionais nas escolas. A convocação dos aprovados em concurso público está completamente paralisada, sem explicações. No último Processo Seletivo Simplificado (PSS), o cenário foi ainda pior: ausência de lisura, desrespeito às regras do edital, falta de transparência na classificação e indícios de contratações motivadas por interesses políticos, não técnicos.
Como se não bastasse a postura autoritária e o desmonte das instâncias democráticas de gestão da rede municipal de ensino, Alfredo tem utilizado sua conta pessoal no Instagram para promover uma verdadeira campanha de difamação e deslegitimação dos profissionais da educação, em especial dos professores.
De forma irresponsável, Alfredo tem exposto reiteradamente supostos casos de irregularidades individuais, como licenças ou atestados médicos, e os apresenta como se fossem práticas generalizadas na rede. Como se a falta de docentes e funcionários se desse por essa razão e não pelo fato de a prefeitura não convocar concursados e ter feito do processo seletivo para contratações temporárias um engodo de morosidade marcado pela falta de transparência e lisura.
Com isso, o tio do prefeito estimula o preconceito, o ódio e o descrédito contra toda uma categoria, contribuindo para o enfraquecimento da valorização profissional e para o adoecimento psicológico de servidores que já enfrentam jornadas exaustivas, salários miseráveis e péssimas condições de trabalho. A conduta do secretário não apenas fere a ética que se espera de um gestor público, mas revela uma administração que se pauta em primeiro lugar pela perseguição, pelo autoritarismo e pela completa incapacidade de promover, genuinamente e não apenas em redes sociais, o diálogo e a escuta com os educadores e as comunidades escolares.
Em resumo, sob o governo “Serginho” a educação pública agoniza, o aparelhamento político da máquina pública se aprofunda e os negócios familiares, estes sim, prosperam! As vidas que melhoram são escolhidas a dedo e a comunidade do Colégio Municipal Rui Barbosa — tal como o Sepe e os trabalhadores da educação pública —, aparentemente, foi eleita inimiga pelo prefeito e pelo seu tio.

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