A denúncia de que a Câmara de Vereadores de Cabo Frio destinou R$ 1,7 milhão à limpeza e substituição de carpete apresenta indícios robustos de irregularidades e possível desvio de recursos públicos. As notas fiscais registram a execução de serviços em 21 mil metros quadrados, enquanto o plenário da Casa possui cerca de 70 m² — uma discrepância que, por si só, inviabiliza qualquer explicação técnica plausível e exige investigação imediata.
O caso ganhou repercussão fora do circuito da imprensa local, sendo revelado na coluna da jornalista Andreza Matais, no portal Metrópoles, veículo de alcance nacional. O silêncio dos principais meios regionais diante de uma denúncia dessa magnitude também merece questionamento.
Empresas sem lastro e fortes indícios de superfaturamento
A reportagem aponta que as supostas empresas contratadas não atuavam no ramo de serviços de limpeza ou manutenção, operavam a partir de endereços residenciais e, em alguns casos, encerraram suas atividades logo após o término da gestão responsável pelos pagamentos. Os contratos estão sob investigação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), o que reforça a gravidade das suspeitas.
O episódio escancara a naturalização da liberação de milhões de reais para contratos duvidosos por agentes políticos locais, em contraste direto com o discurso recorrente de “falta de recursos” quando se trata de educação pública, saúde e serviços essenciais. Enquanto cifras milionárias circulam em esquemas pouco transparentes, escolas seguem com infraestrutura precária, déficit de profissionais e trabalhadores submetidos a arrocho salarial e ataques a direitos históricos.
Disputa política não apaga responsabilidades
A tentativa de usar o escândalo como arma para atingir exclusivamente Miguel não pode servir para ocultar o quadro mais amplo da política local. O atual prefeito, Sérgio Azevedo (PL), também responde a processos e aparece citado em investigações de grande repercussão, como a “Operação Teatro Invisível”, da Polícia Federal.
É fundamental não se deixar capturar pelas disputas internas os grupos de poder locais, que alternam acusações conforme a conveniência política do momento. Em Cabo Frio, não há inocentes no atual arranjo de poder. Quando o objetivo é enriquecer entes privados, atender interesses empresariais ou beneficiar aliados, os recursos surgem com rapidez. Já quando se trata de valorizar quem sustenta a educação e a saúde públicas, o discurso é sempre o mesmo: “não há dinheiro”, “a cidade está quebrada”, “vivemos uma calamidade financeira”.
Causa indignação, ainda, a ausência recorrente de respostas firmes e exemplares por parte de órgãos de controle, como o próprio MPRJ, diante da permanente repetição desses esquemas.
Apuração rigorosa e punição dos responsáveis
O Sepe Lagos exige transparência total, investigação séria e punição de todos os responsáveis, sem seletividade política. Cada real desviado ou desperdiçado faz falta nas escolas, nos serviços públicos e na vida dos trabalhadores. O combate à corrupção não pode ser usado como discurso de ocasião — precisa ser um compromisso permanente com o interesse público.
Por isso, é fundamental que o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) adote providências para que o governo municipal cesse a prática de negar o acesso a dados públicos e a prestação de esclarecimentos aos órgãos de controle social da educação, como o Conselho de Alimentação Escolar (CAE) e o Conselho de Acompanhamento e Controle Social do Fundeb (Cacs-Fundeb). Esses conselhos vêm sendo sistematicamente esvaziados para dificultar a fiscalização do uso do dinheiro público, situação que se arrastou durante todo o ano de 2025 e que permanece.

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