As fortes chuvas que atingiram Cabo Frio e região entre os dias 26 e 27 de fevereiro evidenciaram que o prefeito Sérgio Azevedo (PL) reproduz um padrão presente em muitas gestões públicas: negligencia-se a prevenção, administra-se o caos e investe-se muito nas narrativas pós-crise nas redes sociais.
Bairros como Manoel Corrêa, Jardim Esperança, Maria Joaquina e Tamoios (2º Distrito) registraram alagamentos ainda na quinta-feira (26). Na manhã de sexta (27), a situação já era crítica também em áreas próximas ao Centro. Ruas intransitáveis, casas invadidas pela água, equipamentos públicos afetados e risco sanitário ampliado pela mistura de enxurrada com esgoto, lixo e urina de animais.
Alertas existiram, mas na prática foram ignorados
Os temporais não foram imprevisíveis. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) emitiu alerta amarelo para chuvas intensas no dia 22 de fevereiro e elevou para alerta laranja no dia 23, ambos válidos até o dia 27. Houve, portanto, ao menos cinco dias para mobilização preventiva — que não ocorreu de forma compatível com o risco.
As aulas na rede municipal no Jardim Esperança e em bairros próximos à região central só foram suspensas no turno da tarde do dia 27, quando diversas áreas já estavam alagadas. Escolas enfrentaram falta de estrutura, e estudantes e profissionais foram expostos a deslocamentos sob risco, inclusive com contato potencial com águas contaminadas.
Em um município onde grande parcela da população ainda não possui coleta de esgoto e onde persistem ligações irregulares na drenagem pluvial, alagamento é também questão de saúde pública. Leptospirose, hepatite A, diarreias infecciosas e infecções cutâneas tornam-se ameaças concretas, especialmente para crianças.
Discurso de campanha versus realidade
Na campanha de 2024, o atual prefeito prometeu enfrentar galerias obstruídas, assoreamento, ausência de macrodrenagem e pontos crônicos de alagamento no Manoel Corrêa, Jacaré e Centro. Falou em infraestrutura “embaixo da terra” e planejamento para solucionar o problema.
Passados 1 ano e 2 meses de governo, os mesmos pontos — e outros — voltaram a alagar.
Em pronunciamento nas redes sociais no dia 27, durante as enchentes, o prefeito citou o alto índice pluviométrico e a atuação de um “gabinete de crise climática”. Declarou que avaliaria interromper férias nos Estados Unidos, onde passeia com familiares no Walt Disney World, para “organizar a cidade”, sem anunciar mudanças estruturais que poderiam prevenir situações como as dessa semana.
A viagem havia sido tornada pública no dia 18 de fevereiro, antes dos alertas meteorológicos. O ponto central, contudo, é outro: os avisos estavam ativos havia dias, os bairros vulneráveis são historicamente conhecidos e não houve mobilização preventiva proporcional ao cenário anunciado.
Alagamentos exigem prevenção, não apenas “gabinete de crise”
Governar é antecipar riscos. Isso implica:
- limpeza sistemática de galerias;
- obras estruturantes de macrodrenagem;
- fiscalização de ligações irregulares;
- universalização do saneamento básico;
- manutenção predial de escolas e creches;
- protocolos objetivos e antecipados de suspensão de aulas nas redes pública e privada.
Sem essas medidas, o desfecho se repete: moradores perdem bens; trabalhadores da prefeitura arriscam a saúde na limpeza das áreas atingidas; estudantes e profissionais da educação são expostos; a cidade paralisa.
A chuva é natural. A negligência é política.
O episódio reforça a necessidade de política pública estruturante, contínua e baseada em planejamento técnico — não apenas em respostas emergenciais e vídeos de “prestação de contas”.
Enquanto a prevenção não se tornar prioridade orçamentária e administrativa, Cabo Frio seguirá presa a um ciclo previsível: alerta subestimado, cidade alagada, gabinete de crise, promessa de reorganização — até o próximo temporal.
O Sepe Lagos exige da prefeitura a apresentação de um plano concreto de obras para enfrentar a precariedade estrutural do município. Propaganda de “asfaltinho pretinho” não substitui investimentos que, de fato, evitem o sofrimento da população, sobretudo nas periferias, diante de eventos climáticos extremos.

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