Um levantamento realizado pelo Conselho de Acompanhamento e Controle Social do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (CACS-Fundeb) de Cabo Frio expõe a grave situação de climatização nas escolas municipais. O estudo, realizado entre 18 e 27 de fevereiro de 2025, aponta que 26 unidades escolares não possuem ar-condicionado em nenhuma sala de aula, enquanto outras 29 contam com aparelhos em menos de metade das salas. Além disso, nenhuma escola possui climatização nas cozinhas, e diversos problemas estruturais, como falhas na rede elétrica, comprometem o ambiente de trabalho de educadores e estudantes.
Dados alarmantes evidenciam racismo ambiental
O CACS-Fundeb enviou um formulário para 87 unidades escolares de Cabo Frio, das quais 85 responderam. O resultado é preocupante: apenas 9 escolas têm 100% das salas de aula climatizadas, enquanto 26 unidades não possuem nenhum aparelho de ar-condicionado. Além disso, 35% das escolas têm ventiladores funcionando em todas as salas, mas muitos estão em más condições ou são insuficientes para o tamanho das turmas.
A desigualdade regional é evidente: as escolas localizadas na área central têm mais salas climatizadas, enquanto as unidades em áreas quilombolas ou de difícil acesso sofrem com a falta de investimento. A Escola Municipal Profª Catharina da Silveira, por exemplo, não tem nenhum aparelho de ar-condicionado em suas salas de aula, situação que se repete em outras 25 escolas.
Esse padrão de negligência nas escolas situadas em comunidades mais vulneráveis configura um contexto gritante de racismo ambiental. O conceito refere-se à distribuição desigual dos impactos ambientais negativos sobre populações historicamente marginalizadas. No contexto das escolas municipais de Cabo Frio, crianças e trabalhadores da educação em áreas periféricas e quilombolas enfrentam de forma muito mais precária o calor extremo e condições insalubres, enquanto unidades localizadas em regiões centrais recebem mais investimentos e infraestrutura adequada. Essa disparidade compromete o direito à educação em condições igualitárias, perpetuando as desigualdades sociais já existentes.
Apenas 9 unidades escolares possuem 100% das salas de aula com ar-condicionado
Fonte: CACS-Fundeb Cabo Frio
Respostas por região
Fonte: CACS-Fundeb Cabo Frio
Distribuição da climatização nas salas de aula em escolas da Rede Municipal de Cabo Frio
Fonte: CACS-Fundeb Cabo Frio
Impactos no aprendizado e na saúde de trabalhadores e estudantes
A falta de climatização adequada nas escolas não é apenas uma questão de conforto, mas de saúde e aprendizado. Professores e alunos relatam que o calor excessivo dificulta a concentração e pode causar mal-estar, especialmente em dias de temperatura mais alta, quando os alunos ficam mais inquietos e muitos até passam mal pelo calor. Um estudo recente do Centro sobre a Criança em Desenvolvimento da Universidade de Harvard (EUA) evidenciou perdas na aprendizagem de até 50% quando a temperatura das salas de aula passa os 38°C.
Além das salas de aula, outros espaços escolares, como cozinhas e refeitórios, também enfrentam problemas. Nenhuma unidade escolar possui ar-condicionado nas cozinhas, e 49 escolas não têm qualquer equipamento para reduzir o calor nesses ambientes. Isso torna o trabalho nas cozinhas um verdadeiro suplício e os ventiladores, somente, não amenizam um calor tão insuportável, segundo relatam várias cozinheiras da rede.
Esse cenário é especialmente prejudicial para as cozinheiras que têm idade avançada ou enfermidades crônicas, como hipertensão, diabetes, asma, doenças pulmonares ou osteomusculares.
Problemas estruturais e falta de manutenção
O levantamento também aponta problemas elétricos e de manutenção que agravam a situação. Em 12 escolas, a fiação elétrica é inadequada para suportar a carga dos aparelhos de ar-condicionado, enquanto em 9 unidades há problemas externos, como a falta de adequação da carga pela empresa de energia elétrica. Além disso, 34 escolas têm aparelhos de ar-condicionado sem funcionar ou em mau estado por falta de manutenção.
“É revoltante ver que temos aparelhos instalados, mas que não funcionam por falta de manutenção. Isso é um descaso com a educação e com os profissionais que trabalham nessas condições”, afirma a professora Denize Alvarenga, da coordenação do Sepe Lagos.
A luta sindical e a mobilização da categoria
O Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro – Núcleo Lagos (Sepe Lagos) tem denunciado há anos a precariedade das condições de trabalho nas escolas públicas. A falta de climatização é apenas um dos muitos problemas enfrentados pelos profissionais da educação, que também lidam com salários defasados, falta de materiais e infraestrutura precária.
“Precisamos de uma política séria de investimento na educação pública. A falta de climatização nas escolas é um reflexo do descaso do poder público com a educação e com os trabalhadores”, afirma Juliana Elianay, diretora do Sepe Lagos e atual presidente do CACS-Fundeb. O sindicato tem organizado mobilizações e pressionado a prefeitura para que tome medidas urgentes para resolver os problemas apontados pelo levantamento.
Alguns números importantes levantados pelo CACS-Fundeb
60 das 85 escolas da rede municipal que responderam à pesquisa enfrentam graves problemas de climatização e infraestrutura;
26 escolas sem ar-condicionado em todas as sala de aula;
49 escolas sem qualquer tipo de equipamento para amenizar o calor extremo nas cozinhas;
34 escolas com aparelhos de ar-condicionado sem funcionar por falta de manutenção.
12 escolas com problemas elétricos internos, que dificultam a climatização adequada.
9 escolas com problemas elétricos externos, pendentes de solução por parte da Prefeitura e da empresa privada Enel, que explora a distribuição de energia elétrica na região.
Para pôr fim a esse caos, trabalhadores das escolas, responsáveis por alunos e o movimento estudantil precisam se unir
É preciso fortalecer a mobilização da categoria, dos responsáveis por alunos e dos estudantes para pressionar o prefeito Sérgio Azevedo (PL) e o secretário Alfredo Gonçalves (Republicanos) a tomar medidas concretas. A situação das escolas de Cabo Frio é um retrato do descaso histórico com a educação pública e não é aceitável que essa situação se perpetue. Enquanto os profissionais da educação e os alunos sofrem com o calor e a falta de condições adequadas, o poder público parece estar ignorando o problema, simulando uma rede municipal inexistente com o fantasioso slogan “educação nota 10”.
O Sepe Lagos convoca todos os profissionais da educação e as comunidades escolares a se unirem na luta por escolas com a qualidade que os nossos estudantes e trabalhadores merecem.
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