Os resultados do Ideb de 2025 colocam Cabo Frio entre as redes municipais com pior desempenho no Estado do Rio de Janeiro. O município obteve nota 5,3 e ficou na 73ª posição nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Nos anos finais, registrou 4,0 e ocupou o 77º lugar. Os dados estão disponíveis na página oficial do Inep.
Para o Sepe Lagos, o Ideb não representa a qualidade da Educação nem pode servir para julgar seus profissionais. O índice reduz um processo amplo a taxas de aprovação e testes padronizados de Língua Portuguesa e Matemática, sem considerar adequadamente fatores como condições socioeconômicas, infraestrutura, falta de pessoal, salários, tamanho das turmas e tempo de planejamento. Essa concepção de avaliação externa expressa exatamente o que Paulo Freire chamou de “educação bancária” em sua obra Pedagogia do Oprimido.
Porém, isso não torna irrelevante a posição de Cabo Frio. O Ideb é o instrumento oficial adotado pelo Estado para estabelecer metas, comparar redes e cobrar resultados. Mesmo pelos critérios limitados desse modelo, a política educacional da Prefeitura apresenta um resultado grave.
O Sepe não responsabiliza professores, funcionários, estudantes ou famílias. A cobrança deve recair sobre quem administra o orçamento e define as condições da rede: o prefeito Sérgio Azevedo, o “Serginho” (PL) e seus principais agentes na educação municipal, o vereador Alfredo Gonçalves (Republicanos) e Alessandro Teixeira, atual secretário de educação.
Um modelo de controle, não de qualidade social
Pesquisas de universidades públicas demonstram que o Ideb não oferece um retrato neutro ou completo da escola. O estudo “O Ideb: limites e ilusões de uma política educacional”, produzido por pesquisadores da Unicamp, destaca a influência do nível socioeconômico sobre o desempenho e questiona o uso de uma única nota para medir a qualidade das instituições. Um artigo da Revista HISTEDBR On-line, do Grupo de Estudos e Pesquisas em História, Sociedade e Educação no Brasil, aponta que as avaliações externas incorporaram à gestão educacional uma lógica concorrencial e neotecnicista, baseada em produtividade, eficiência, metas e desempenho.
Uma pesquisa de Leonice Richter e Maria Vieira Silva, da Universidade Federal de Uberlândia, realizada com 225 profissionais de 29 escolas públicas, identificou pressão por metas, treinamento para provas, concentração nos conteúdos avaliados e perda de autonomia pedagógica. As autoras também apontam uma “responsabilização unilateral”: o poder público cobra resultados das escolas, mas transfere aos trabalhadores a responsabilidade por problemas decorrentes da falta de investimentos, pessoal e condições adequadas.
O Sepe defende uma avaliação democrática, construída com profissionais e comunidades, que considere acesso, permanência, aprendizagem, inclusão, financiamento, infraestrutura, condições de trabalho, remuneração e formação humana ampla.
“Serginho” mantém o arrocho e recusa o diálogo
Responsável por enfrentar os problemas da rede, o governo “Serginho” mantém a política de desvalorização herdada das gestões anteriores.
Em 2026, os profissionais chegaram ao quarto ano consecutivo sem reajuste geral. Entre 2023 e 2025, a inflação acumulada foi de aproximadamente 14,35%, corroendo o poder de compra da categoria.
O vencimento inicial do professor com formação de nível médio permanece em R$ 2.290,30 para 20 horas semanais — R$ 275,02 abaixo do Piso Nacional do Magistério de 2026, proporcionalmente fixado em R$ 2.565,32. Apenas para alcançar o piso, seria necessária uma correção de cerca de 12%.
Também permanecem pendentes enquadramentos e progressões previstos no Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração. Ao mesmo tempo, a rede sofre com falta de profissionais e demora na convocação dos aprovados no concurso público de 2020.
Apesar disso, o prefeito se recusa a negociar efetivamente com o Sepe Lagos. Ofícios e pedidos de audiência foram ignorados, e nem a mudança no comando da Secretaria de Educação, com Alessandro Teixeira, alterou essa postura. Desde o ano passado o sindicato tem denunciado publicamente a recusa da Prefeitura em dialogar.
Enquanto professores e funcionários acumulam perdas e cobram seus direitos, o governo evita apresentar respostas concretas.
A precarização afeta o cotidiano escolar
A rede também enfrenta problemas de infraestrutura e manutenção insuficiente das unidades. Somadas à falta de profissionais, essas condições dificultam a continuidade do trabalho pedagógico e comprometem o atendimento aos estudantes.
Esses fatores não explicam mecanicamente o resultado de 2025, mas influenciam o cotidiano escolar e não aparecem adequadamente na nota do Ideb. Ao se limitar aos testes e às taxas de aprovação, o índice omite as condições materiais em que os resultados são produzidos.
O fracasso da agenda municipal de extrema direita
A posição de Cabo Frio no Ideb não representa o fracasso dos profissionais, mas evidencia, até pelos critérios estreitos adotados pelo Ministério da Educação, o fracasso da política municipal.
“Serginho” não pode exigir melhores resultados enquanto mantém salários abaixo do piso, descumpre direitos, deixa escolas sem pessoal suficiente e fecha as portas ao sindicato. Tampouco pode responder com mais metas, cobranças e treinamento para provas sem garantir condições básicas de funcionamento.
Superar esse quadro exige reajuste salarial, cumprimento do PCCR, pagamento do Piso Nacional do Magistério, convocação dos concursados, equipes completas, infraestrutura adequada e abertura imediata de uma mesa de negociação com o Sepe Lagos.
Enquanto persistirem o arrocho, a precarização e a recusa ao diálogo, o discurso de valorização da Educação continuará desmentido pela realidade das escolas — e até pelos resultados do modelo limitado e enviesado adotado pelos governos.
Só a luta unificada pode mudar essa realidade
Diante da recusa do prefeito em dialogar, a categoria precisa transformar indignação em pressão organizada. Assembleias e mobilizações devem reunir profissionais do magistério e funcionários administrativos, ativos e aposentados, efetivos e contratados, em torno de uma pauta comum.
Somente uma mobilização ampla de todos os setores da Educação municipal poderá obrigar o governo “Serginho” a negociar e responder às reivindicações dos trabalhadores.

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