A Operação Escola de Papel, deflagrada nesta quinta-feira, 1º de outubro, acrescenta novas suspeitas de corrupção ao histórico do governo Cláudio Castro (PL), aliado político do prefeito de Cabo Frio, Sérgio Azevedo, o “Serginho”, do mesmo partido. Entre os alvos está Roberta Barreto, que comandou a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc-RJ) entre março de 2023 e fevereiro de 2026. A investigação apura possíveis desvios de recursos destinados a reformas de escolas públicas — dinheiro que deveria melhorar as condições de ensino e de trabalho.
A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) cumpriram no dia de hoje 19 mandados de busca e apreensão. A Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 19 milhões em bens dos investigados. Além da ex-secretária, estão entre os alvos seu genro, Yurie Lopes Fonseca Ormonde André, o ex-subsecretário David de Andrade Marinho Filho e o empresário Fabio Martins Pereira.
Suspeita de desvios de verbas em obras escolares
Segundo os investigadores, procedimentos destinados a pequenos reparos teriam sido utilizados para contratar obras maiores sem licitação, com direcionamento de empresas, propostas combinadas e superfaturamento. Os recursos passavam pelas Associações de Apoio às Escolas antes de chegar às empresas contratadas.
Um dos episódios que impulsionaram a apuração foi a apreensão de R$ 500 mil em dinheiro, em janeiro, após um saque bancário em Duque de Caxias. Conforme o MPRJ, o administrador da empresa abordado declarou que, de aproximadamente R$ 6 milhões recebidos para cerca de 15 obras, apenas R$ 2 milhões foram empregados nos serviços; os outros R$ 4 milhões teriam ficado com o intermediário das contratações.
O conjunto de contratos submetidos à análise chega a aproximadamente R$ 1,69 bilhão. Esse valor representa o universo das contratações examinadas, e não um montante de desvio já comprovado. A Seeduc informou que está revisando contratos e procedimentos e colaborando com os órgãos de investigação.
Mais um dos muitos escândalos envolvendo aliados de Serginho
Roberta Barreto chegou ao comando da Educação durante o governo Castro, em uma nomeação associada à influência de Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). Serginho também integrou o governo estadual: foi nomeado por Castro para a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI-RJ) em novembro de 2020.
A proximidade com esse grupo é algo que parece não envergonhar o prefeito. Em junho de 2025, a própria Prefeitura anunciou o lançamento de obras em Cabo Frio com Serginho, Bacellar e Douglas Ruas, então secretário estadual das Cidades. Neste ano, Serginho participa da articulação eleitoral em apoio a Ruas, candidato do PL ao governo estadual.
Bacellar foi preso pela Polícia Federal em dezembro de 2025 e novamente em março de 2026. Em agosto, tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal por obstrução de investigação contra organização criminosa armada. A acusação envolve o vazamento de informações sobre uma operação contra o então deputado TH Joias e orientações para destruir provas. Sua defesa sustenta a inocência.
Uma empresa ligada à família de Douglas Ruas, por sua vez, também foi alvo de notícias sobre a compra de precatórios, incluindo títulos de ex-policiais demitidos por corrupção, caso que à época sua assessoria atribuiu a “investimentos legais por meio de um escritório especializado”.
Já Cláudio Castro teve a inelegibilidade confirmada pelo TSE por abuso de poder político e econômico e captação ilícita de recursos nas eleições de 2022, no caso envolvendo Ceperj e Uerj. Também foi alvo de buscas, em maio deste ano, na investigação sobre a aplicação pelo Rioprevidência de cerca de R$ 3 bilhões em letras financeiras e fundos ligados ao Banco Master. Dinheiro desviado dos fundos previdenciários dos servidores públicos do estado.
Vale lembrar: Serginho também é investigado pela Polícia Federal
O próprio Serginho foi alvo de busca e apreensão em 16 de abril de 2025, na segunda fase da Operação Teatro Invisível. O inquérito apura uma suposta rede de desinformação eleitoral, com suspeitas de caixa dois, fraudes em licitações, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça. Segundo a investigação divulgada à época, recursos não declarados teriam beneficiado candidaturas nas eleições municipais de 2024. O prefeito negou participação em ilícitos e afirmou que demonstraria equívocos na apuração.
Para a direção colegiada do Sepe Lagos, o caso Roberta Barreto deve ser situado nessa sucessão de denúncias, investigações e decisões judiciais que atingem integrantes do grupo político ao qual Serginho permanece vinculado. A responsabilidade criminal deve ser individualizada de acordo com as particularidades de cada caso, mas a responsabilidade política pelas alianças e pela gestão dos recursos públicos também precisa ser cobrada sempre, inclusive num ano eleitoral.
No caso da ex-secretária estadual de educação, a população tem direito de saber quem recebeu o dinheiro destinado às escolas, quais serviços foram efetivamente realizados e quem autorizou e fiscalizou os pagamentos. O Sepe Lagos exige apuração rigorosa, transparência, recuperação dos valores eventualmente desviados e responsabilização dos envolvidos. Cada recurso retirado da Educação compromete um direito dos estudantes e dos trabalhadores.

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